sexta-feira, 27 de abril de 2012

Colaboração de José Maria Dias da Cruz A velhice e a juventuda e os auto-retratos de Rembrandt




A Velhice e a juventude e os auto-retratos de Rembrandt, um trecho de um e-mail de Antônio Augusto Mariante e um adendo escrito por José Maria Dias da Cruz





Estou hoje lúcido como se estivesse para morrer

Àlvaro de Campos (Fernando Pessoa)










Auto retrato de Rembrandt quando jovem


“Pelo amor de Deus, não se preocupe também com o envelhecimento - é o preço de uma vida em sua extensão em franco alongamento. Sei que há percalços de natureza física, mas isso faz parte do próprio movimento da mera natureza das coisas. Vejo a velhice como o ponto de culminância de um sujeito, onde mente e espírito atingem o ápice daquela individualidade - entretanto, tal situação só se dá com criaturas de escol, e pouco importa que sejam até analfabetas, pois o relevante não é a cultura adquirida, mas a sabedoria alcançada. Adoro uma negra velha bem sábia, dessas que calejaram suas mãos num tanque e numa cozinha, e se afirmam quase puras quando a morte as abraça.

Entretanto, não é bem esse o caso da maioria dos velhos que tenho encontrado pelo caminho de minha sensibilidade: eles se impõem pelo retrocesso e pela infantilidade, negando a morte como um bom avestruz ou uma tola criança inglesa que se recusa a emprestar seu teddy bear.

Adoro John Huston que dirigiu The Death (baseado num conto de Joyce) numa cadeira de rodas e com uma sonda pavorosa entrando por uma das suas narinas. O filme é chato, mas a iniciativa dele é sublime.



Portanto, não se aflija e toque o cavalo no touro! Pinte até o fim! E o resto que se dane!”



Antônio Augusto Mariante







A velhice ontem e hoje



É na velhice que o homem pode ter uma consciência de sua existência e, assim, saber se ela, esta existência, foi uma realização plena que lhe permita, então, perceber que não viveu em vão, que considerou os outros e até mesmo se deixou um legado. Por outro lado pode, também, até mesmo perceber se sua vida foi submissa a interesses alheios a sua existência, interesses estes que o levaram a um individualismo exarcebado, inútil, egoísta e que na maturidade lhes permitam se rever e se salvar com um olhar de ternura.

Um exemplo são os auto-retratos de Rembrandt. Um pintado quando ainda jovem. Sua expressão é altiva, vaidosa, preparada para um destino vencedor. Outro na sua velhice. Neste a sua expressão já diz tudo. Ficam claras a sua lucidez, maturidade e sabedoria apesar da trágica derrota e da solidão antes de seu fim. As palavras tornam-se até quase inúteis, percebe-se logo quando se vê o auto-retrato quando velho. Há um olhar que nos vê e se vê.  Um olhar de ternura.

E hoje, quando se enaltece tanto a juventude! Por quê?



E o que é o tempo de uma vida? Há aquela, padronizada, medida pelos anos. Mas há aquela que pode ser medida também tanto pelas condições físicas dos indivíduos ou como pelos seus respectivos estados de amadurecimento.  Cronos e aión em convivência.  



José Maria Dias da Cruz





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Auto retrato de Rembrandt quando velho





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Maurizio Cattelan

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