quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Conversando sobre Arte Entrevistada Patricia Gouvêa

Patrícia Gouvêa por Isabel Lögfren

Patricia fotógrafa, artista e fundadora do Ateliê da Imagem permite ao leitor identificar a correlação entre sua madura entrevista e a qualidade de sua obra. Obrigado Patricia.

Patricia, conte algo de sua vida pessoal  
Nasci no Rio de Janeiro em 1973, filha de pai bancário e mãe dona de casa. Estudei o primeiro grau no Colégio Marista São José, na Tijuca, e o segundo grau na Escola Suiço-Brasileira, em Santa Teresa. Morei na Tijuca até os 18 anos de idade, quando mudei com minha família para a Urca e coincidentemente ingressei na Escola de Comunicação da UFRJ, que fica no mesmo bairro.

Como a Arte entrou em sua vida?
Quando tinha 17 anos passei uma temporada na Alemanha estudando o idioma num curso que era vinculado à Universidade de Heidelberg, cidade universitária e muito cultural. O curso incluía várias visitas a museus, coleções de arte e instituições importantes como a sede da Bauhaus. Quase todos os programas culturais eram de graça para estudantes e, quando não estava estudando, passava boa parte do meu tempo indo em concertos de música clássica nas igrejas desativadas, Também tinha um passe de trem e muitos amigos da Escola Suíça que estavam morando por lá e que me acolhiam nos fins de semana. Conheci Berlim um ano após a queda do Muro, ainda com aquela diferença clara entre a parte ocidental e oriental, que estava parada nos anos 40.

Qual foi sua formação artística?
Quando voltei da Alemanha passei a frequentar todos os cursos livres sobre História da Arte que encontrava na cidade e eram acessíveis para estudantes, como os oferecidos pelo CCBB, e também estudei fotografia na extinta FotoRiografia. Meu desejo era estudar cinema na UFF ou Artes Plásticas na UFRJ, mas acabei desistindo porque o cinema estava naquela época pésssima da extinção da Embrafilme, com muito pouco trabalho, e eu também achava que se estudasse Artes Plásticas iria ser difícil conseguir minha independência financeira rapidamente. Talvez tenha faltado coragem da minha parte… Acabei optando pelo curso de Comunicação Social, pois eu gostava de escrever e achei que poderia ser jornalista. Mas logo no primeiro ano da faculdade comecei a trabalhar como fotógrafa e, aos poucos, fui conseguindo realizar o que eu tinha sonhado. Em 1997 fui selecionada para o Curso Abril de Jornalismo em Revistas, morei uma temporada em São Paulo e trabalhei muito como freelancer. Depois, em 1999, fundei o Ateliê da Imagem e, a partir de 2002, quando ganhei o prêmio de melhor portifólio no Encuentros Abiertos de Fotografía de Buenos Aires, passei realmente a me dedicar aos meus projetos autorais.


Que artistas influenciam seu pensamento?
São muitos, mas vou citar os que estão sempre na minha cabeça: Francesca Woodman, Maya Deren, Agnès Varda, Abbas Kiarostami, Cildo Meirelles, Kim Sooja, Rosângela Rennó, Claudia Andujar e Shirin Neshat.

Como você descreve sua obra e qual o assunto preferido?
Desenvolvo uma pesquisa sobre os desdobramentos da noção de Tempo, e as possíveis interfaces entre a fotografia e a imagem em movimento, principalmente. Esta pesquisa foi desenvolvida teoricamente na minha dissertação de Mestrado em Comunicação e Cultura, também feito na ECO/UFRJ, na linha Tecnologias da Comunicação e Estéticas da Imagem, que deu origem ao livro “Membranas de Luz: os tempos na imagem contemporânea”, publicado em 2011 pela Azougue Editorial. Mais recentemente, meus projetos têm incluído também a palavra e as intervenções no espaço, como na série Banco de Tempo, atualmente em exposição na galeria e no jardim do Museu da República, em exposição até 29 de abril. Este projeto foi todo feito em parceria com a artista Isabel Löfgren.

Fotografia digital ou com filme?
O que for mais adequado para a materialização de uma idéia.

Fotografia ou vídeo, alguma preferência?
Não tenho nenhuma preferência a priori. Mas me interessa muito pensar nas relações entre estas mídias.

Que exposição você considera a mais importante?
Do meu trabalho? Sem dúvida, minha primeira individual “Imagens Posteriores”, em 2003, com curadoria do João Wesley de Souza, que foi meu orientador por muitos anos, na antiga galeria Lana Botelho Artes Visuais, na Gávea, que depois virou Galeria 90 Arte Contemporânea, que infelizmente já fechou. A primeira individual a gente nunca esquece. Pelo nervosismo, pelo aprendizado das coisas que dão certo e também pelos erros. Mas a exposição mais importante da vida foi a de Francesca Woodman, que vi no Rencontres d’Arles, na França, em 1998. Saí passando mal… Ela construiu uma obra intensa e surpreendente em muito pouco tempo, dos 14 aos 32 anos de idade, quando suicidou-se. Ela virou um parâmetro angustiante pra mim.

É possível viver de arte no Brasil?

Eu acho possível sim, mas exige muita perseverança, desapego, obstinação. Tempo para plantar e esperar a colheita. Vejo muita gente querendo surfar na onda de ser artista, principalmente no meio fotográfico, como se fosse apenas como acordar um dia e decidir “vou ser fotógrafo de arte” porque é isso agora que está na moda. Você não é artista porque está na moda, e sim porque simplesmente você não pode ser outra coisa. Você pode até fugir deste caminho, como eu tentei por um tempo, mas é algo que em algum momento você terá que lidar, porque é uma necessidade existencial.

Você é fundadora e diretora do conceituado Ateliê da Imagem, poderia comentar a contribuição dele para a Arte?
Eu acho que o Ateliê ajudou a formar uma nova geração de fotógrafos, artistas e apreciadores da imagem que não têm preconceitos com os outros suportes, o que é um diferencial para gerações anteriores, onde o que mais importava era o meio e não o conceito.Quando a gente começou a insistir nos hibridismos, que depois viraram um lugar-comum na arte contemporânea, muita gente torcia o nariz para a gente. No Ateliê tem muito espaço para a técnica, para o fazer bem-feito que eu pessoalmente considero algo importante. Mas pensar a imagem e promover o debate entre a fotografia, o vídeo, o cinema, as mídias digitais, a performance etc é o nosso grande norte. Isto se reflete na programação das Sextas Livres, evento que promovemos desde 1999 sem interrupção, nas exposições da nossa pequena Galeria, nos seminários e curadorias que organizamos por aí afora.






O que é o grupo DOC?

O Grupo DOC (Desordem Obssessiva Compulsiva) é um coletivo fundado em 2005 por mim e os artistas quase irmãos Isabel Löfgren, Marco Antonio Portela e Mauro Bandeira. Fizemos parte do mesmo grupo de estudos com o João Wesley de Souza. Fomos muito atuantes entre 2005 e 2009, promovendo diversas ações artísticas afetuosas, cujo objetivo era materializar nossas idéias e desafiar artistas amigos a contribuírem conosco, num movimento de artistas para artistas. Nossa ação mais conhecida e que mobilizou mais artistas no Brasil e no exterior (Bogotá e Estocolmo) foi a NANOEXPOSIÇÃO, que tinha como desafio produzir uma obra com o mínimo de tamanho e o máximo de potência. Na primeira versão, realizada em 2005 na Galeria Arte em Dobro, teve a participação de 34 artistas. Na última, em Estocolmo, realizada em 2009, teve a participação de mais de 200 artistas. Em todas as cidades em que foram realizadas convidávamos um curador que, por sua vez, convidava artistas da cidade. As vernissages eram sempre uma festa, com um monte de adultos e crianças manipulando lupas para ver as obras. Em Estocolmo, por exemplo, foram mil visitantes em apenas 15 dias, numa galeria totalmente off circuitão, também gerida por um coletivo. Todas as nossas ações podem ser vistas em www.grupodoc.net
Estamos tentando reativar o coletivo, mas, com a Isabel morando na Suécia, fica um pouco mais difícil… Temos um convite para o Projeto Vitrine Efêmera em novembro, vamos ver.

Quais são seus planos para o futuro?
Neste momento estou bem focada na captação para o meu segundo livro, o primeiro só com meu trabalho, sobre a série Imagens Posteriores, desenvolvida entre 1999 e 2009. O projeto gráfico está a cargo da Elisa von Randow, com edição de Claudia Buzzetti e texto de André Vianna, todos amigos muito importantes na minha vida. É assim que gosto de trabalhar.
Tenho possibilidades de viajar este ano com minha individual Exercícios de Arte Lúdica, apresentada ano passado no CCJF e pretendo realizar até o fim do ano a segunda edição do Máquinas de Luz: Forum das Imagens Técnicas, projeto que idealizei e que foi realizado em 2009 no Cine Glória, com patrocínio do BNDES.
Além disso, estou trabalhando num projeto de imagem e som desde 2010 com o compositor e músico Marcos Kuzka, vamos apresentar um projeto-piloto agora no dia 01/03 na ocupação “Verão” na Galeria da Gávea. E, mais a longo prazo, pretendo logo que for possível fazer um doutorado, já estou com saudades desta imersão.



Fenda (2003/2006)


Fenda (2003/2006)



Membrana da série Corpo Significante (2005/in progress)



Série Imagens Posteriores (1999-2009)



 Exercícios da Arte Lúdica (2005/in progress)


Exercícios da Arte Lúdica (2005/in progress)



A Volta do Parque em 80 Mundos (detalhe) Still do vídeo Lecture sur L'Herbe e registro da instalação Desejo de Horas série Banco de Tempo.







Tarde (still do vídeo) da série Observações sobre o Tempo.

Para conhecer outros trabalhos, os vídeos e o Ateliê da Imagem vá para os sites abaixo.


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Maurizio Cattelan

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